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companhia dentro de outra companhia, campo de experimentação
Em 1999, durante a segunda gestão de Ivonice Satie à frente da companhia, o Balé da Cidade de São Paulo transformou-se, dividindo-se em dois. Polarizava-se um mesmo elenco, na busca de uma mudança de estrutura.
Uma alteração substancial, atualizando-se, através dela, uma discussão fundamental da história da dança enquanto moderna linguagem do século XX: o debate sobre diferentes formas de interpretação dentro do contemporâneo.
Durante o último século, este debate caminha com o desenvolvimento da dança e balé modernos, cujos criadores, à semelhança de outros artistas de vanguarda, buscam a liberdade de expressão, na procura de outras formas para a linguagem, em modificações e transgressões distantes ou mais próximas do balé clássico e de sua técnica.
A partir daí, muitas possibilidades abriram-se para os intérpretes da dança, atualmente herdeiros de tradições clássicas e modernas, artistas buscando especificidades e diferentes maneiras de intervenção, como homens e mulheres de seu tempo e lugar.
Em momentos decisivos da história do Balé da Cidade de São Paulo, grandes intérpretes jogaram um peso fundamental em sua estruturação, como no período em que a companhia, de Corpo de Baile Municipal, se transforma em Balé da Cidade de São Paulo, sob inspiração de Marilena Ansaldi e construção de Antônio Carlos e Iracity Cardoso. Sob a direção de Klauss Vianna, momento também fundamental para a companhia foi quando da criação de um “Grupo Experimental”, cujos integrantes, paralela e conjuntamente com os artistas do elenco, modificam o perfil das obras do grupo.
Em 1999, a divisão da companhia em dois elencos constitui-se em um marco histórico e institucional, lançando-se a sorte através da modernização da estrutura da companhia em si, a mudança remetendo-se a câmbios ocorridos em outras companhias ocidentais, como foi com o Nederlands Dans Theater, sob a direção de Jiri Kylián, onde a instauração de um grupo de bailarinos sêniores também foi norteada por perspectivas diferenciadas para um grupo de intérpretes que aliassem grande experiência técnica à maturidade cênica.
Numa ação específica de cidadania cultural, a tônica da Cia. 2 – uma nova companhia dentro da outra- foi a procura de outros caminhos para uma estrutura pública brasileira, na qual profissionalismo pudesse se matizar de mais profissionalismo, em possibilidades específicas para artistas em diferentes momentos de suas trajetórias.
Estruturando-se através de diversas assinaturas, o repertório da Cia. 2, vem apresentando um elenco de artistas que aceitaram este desafio, compartilhando com a direção da companhia a responsabilidade de modificações que a proposta já trazia em seu bojo.
Desde 1999, coreografaram para a Cia. 2 Anselmo Zolla, Denise Namura e Michael Bugdhan, Gabriel Castillo, Henrique Rodovalho, Jorge Garcia, Luis Arrieta, Luiz Fernando Bongiovanni, Mara Borba e Olaf Schmidt, sendo que alguns dos intérpretes do grupo se sucederam em criações para o elenco: Armando Aurich ,Cláudia Palma, Lilia Shaw e Raymundo Costa. Além disto, conjuntamente, os bailarinos do grupo realizaram em 2003 o Carnaval dos Animais, criação compartilhada entre todos.
Em 2004, agora sob a batuta de Mônica Mion, diretora da companhia a partir de 2001, abre-se um outro caminho no desenvolvimento do grupo, onde a experimentação vem sendo tônica necessária de atuação: a proposta Solo em questão, através da qual cada um dos intérpretes escolhe uma maneira solista de trabalho, elegendo, quase todos, criadores das artes do espetáculo para acompanhá-los em suas jornadas individuais: Ana Teixeira, Dudude Herrmann, Luiz Fernando Bongiovanni, Márcio Aurélio, Mariana Muniz, Marta Soares e Sandro Borelli.
Com este programa, reforça-se o trabalho com um elenco formado por bailarinos solistas de natureza peculiar, abrindo-se espaço para atividades de investigação de excelência, um privilégio para todos os artistas envolvidos nestes processos, um privilégio para a dança de São Paulo.
Esta fase da Cia. 2 implica em novo desafio para aqueles que a compõem, propondo-se uma maior liberdade de atuação, privilegiando-se o talento de cada um, através da flexibilização de papéis, oportunizando-se trocas e construções junto a outros artistas da cena contemporânea.
Os oito solos, resultados deste programa, se revelarão como produtos de uma nova etapa da Cia. 2, revelando dimensões para o seu futuro.
A partir da básica questão da abertura e instauração de espaços para profissionais mais maduros da dança deste país, ponto crucial da arte coreográfica em si, a experiência histórica da Cia. 2 aponta para outros formatos de trabalho em dança, pela fronteirização de linguagens e trajetórias artísticas.
Através desta potencialidade histórica e contemporaneamente aberta dentro de um local público, poderão ser afirmados os seus mais amplos objetivos, para além de uma demarcação simplista do tempo e espaço da trajetória de cada artista, projetando-se sua inserção no tempo mais amplo da arte de nossos dias.
Cássia NAVAS - São Paulo, outubro de 2004.
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