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» Balé da Cidade: 40 anos de história

O BALÉ DA CIDADE DE SÃO PAULO é a companhia de dança oficial de uma das maiores metrópoles do mundo e – como a Cidade – possui forte personalidade cosmopolita.

Fundada como companhia de dança clássica em 07 de fevereiro de 1968 pelo Prefeito Faria Lima, com o nome de Corpo de Baile Municipal, tinha como proposta acompanhar as óperas do Teatro Municipal e se apresentar com as obras do repertório clássico. Seu diretor era Johnny Franklin, e a primeira apresentação pública da companhia foi em 11 de Setembro de 1968 para acompanhar a ópera, e em 06 de abril de 1969 fez sua primeira apresentação como Corpo de Baile.

Em 1974, sob a direção de Antonio Carlos Cardoso, Iracity, Cardoso e Marilena Ansaldi, a companhia assumiu o perfil de dança contemporânea que mantém até hoje. Apresentando coreógrafos como Vitor Navarro, Oscar Araiz, Luis Arrieta e o próprio Antônio Carlos, o BALÉ DA CIDADE era uma presença destacada no cenário da dança sul-americana. Peças memoráveis como “Vivaldi”, “Aquarela do Brasil”, “Cenas de Família” e “Presenças”, tiveram enorme sucesso de público e crítica especializada.

Nos anos 80, o experimentalismo marcou a trajetória da companhia. Liderados por Klauss Vianna, os bailarinos eram encorajados a contribuir com suas próprias idéias coreográficas que resultaram em trabalhos marcantes como “A Dama das Camélias”, de José Possi Neto, “Bolero”, de Lia Robatto, e “Valsa para Vinte Veias” de J.C. Violla.

Ainda no final desta década, Luis Arrieta dirige a companhia pela segunda vez e imprime perfil personalíssimo ao único período em que o grupo teve um coreógrafo residente.

A bem sucedida carreira internacional do BALÉ DA CIDADE teve início com sua participação na Bienal de Dança de Lion, França, em 1996. Desde então suas turnês européias tem sido aclamadas tanto pela crítica especializada quanto pelo público que tem lotado as platéias de todos os grandes teatros onde a Companhia tem se apresentado.

Em 1999 o BALÉ DA CIDADE destacou de seu elenco alguns bailarinos, os mais experientes e de consolidada carreira, para compor um grupo que busca a vanguarda dentro das tendências da dança contemporânea, abordando linguagens coreográficas através de conceitos e métodos diferenciados. Este grupo chamado Companhia 2 abriu novos horizontes para a dança brasileira e para a própria companhia, seu trabalho foi reconhecido pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte de São Paulo) que lhe conferiu 3 prêmios nos anos de 2005 e 2006.

Desde 2001 o BALÉ DA CIDADE DE SÃO PAULO desenvolve trabalhos paralelos, gratuitos e abertos ao público em geral, como: oficinas, cursos, debates, encontros com personalidades, ações sociais, intercâmbio com universidades, mostras de coreografia, fotografia, vídeo, dinamizando seu espaço e partilhando seu patrimônio pessoal e cultural com a população da cidade.

Hoje o BALÉ DA CIDADE possui em seu repertório obras dos mais conceituados coreógrafos da atualidade: Ohad Naharin, Vasco Wellenkamp, Gagik Ismailian, Germaine Acogny, Mauro Bigonzetti, Angelin Preljocaj, Rodrigo Pederneiras, Henrique Rodovalho, Deborah Colker, Jorge Garcia, Luis Arrieta, Sandro Borelli, Mário Nascimento, Luis Fernando Bongiovanni, Maurício de Oliveira e muitos outros. Recebeu mais de 50 prêmios que endossam sua grande trajetória.

A longevidade do BALÉ DA CIDADE DE SÃO PAULO e o interesse da nata coreográfica nacional e internacional em criar para a companhia oficial de dança da cidade de São Paulo mostram seu prestígio no mundo da dança com o incondicional apoio do diretor do Teatro Municipal de São Paulo e do Secretário de Cultura da cidade.

BALÉ DA CIDADE DE SÃO PAULO - 35 ANOS

Rui Fontana Lopes (Ex-diretor 1989-1992)

Os 35 anos do Balé da Cidade de São Paulo contam a história de duas companhias de dança. Passemos à primeira delas, que é a história de um grupo criado em 1968 com um dupla finalidade: absorver uma parte das alunas e os pouquíssimos alunos egressos da Escola Municipal de Bailados e atender às necessidades de bailarinos colocadas pelas óperas encenadas no Teatro Municipal.

Nos muitos e longos intervalos entre um título lírico e outro, esse grupo, então chamado Corpo de Baile Municipal, dedicava-se a produzir arremedos do repertório clássico tradicional e a dançar sobretudo criações de Johnny Franklin, seu primeiro diretor artístico, e eventualmente umas poucas obras de Lia Marques e Marília Franco, personagens importantes da dança feita em São Paulo nos anos 1950 e 1960, ligadas, ambas, à Escola de Bailados e ao recém-nascido Corpo de Baile.

Ainda que esse grupo e seus protagonistas tenham trazido sua contribuição à história da companhia oficial de dança de nossa cidade, foi no ano de 1974 que o Balé da Cidade nasceria pela segunda vez, e dessa vez com os traços que marcam sua fisionomia até hoje. Essa nova história do Corpo de Baile Municipal de São Paulo, ou a história desse novo Corpo de Baile, começou a ser escrita em 1973, pelas mãos de José Luiz Paes Nunes - pianista, crítico de música, animador cultural e intelectual amoroso das artes e da cultura -, em sua breve mas notável passagem pelo Departamento de Cultura da Secretaria da Educação, numa época em que ainda não havia a Secretaria Municipal da Cultura em São Paulo.

Empreendedor inquieto e espírito desassossegado, Paes Nunes achava que a cidade merecia uma companhia de dança afinada com seu tempo e, também, que correspondesse às muitas e diferentes cidades que, já na década de 1970, formavam essa única e mesma cidade chamada São Paulo. Convidada para assumir a direção do Corpo de Baile, a bailarina, coreógrafa e professora Marilena Ansaldi declinou do convite. Pouco afeita a funções dessa natureza, sugeriu para o posto o nome do gaúcho Antônio Carlos Cardoso, então um jovem coreógrafo e bailarino que começava sua carreira na Europa. Contatado, Cardoso aceitou o convite e mobilizou uma equipe de trabalho formada por ele, Marilena Ansaldi, pela bailarina e assistente Iracity Cardoso e pelo coreógrafo espanhol Victor Navarro. Isso tudo aconteceu entre o final de 1973 e meados de 1974, quando essas quatro destemidas criaturas começaram a trabalhar para trazer à luz uma companhia de dança contemporânea, de base clássica, aberta a diversos criadores e às múltiplas tendências da dança e do teatro de seu tempo. Como a sua cidade-sede.

Poucos meses depois, no final de 1974, num gesto tão espetacular quanto improvável, eles conseguiram estrear o primeiro espetáculo da nova companhia de dança da cidade de São Paulo. No repertório, quatro obras inéditas - Uma das quatro (Navarro / Vivaldi), Sem título (Cardoso / colagem com músicas de Miles Davis, Beatles e Herbie Mann), Medéia (Ansaldi / Pink Floyd) e Paraíso? (Cardoso / música original de Hermeto Paschoal) - mostravam um novo modo de pensar e propor a arte da dança a platéias acomodadas ou entediadas com a modorra do repertório convencional.

No palco, os bailarinos que haviam aderido ao novo projeto compensavam eventuais carências técnicas, e uma certa falta de entrosamento, compreensíveis dadas as circunstâncias, com a alegria de estar fazendo uma dança repleta de sentido e vitalidade. Na platéia, primeiro o susto, depois o encanto: a transformada companhia do Teatro Municipal de São Paulo mostrava a que vinha, esclarecia que estava disposta a romper barreiras e deixava claro que fazia questão de levar o público consigo em sua aventura. E foi assim que naquele final de 1974 a história da dança no Brasil ganhou esse novo e importantíssimo personagem, que jamais sairia de cena.

Permito-me aqui uma reminiscência pessoal: foi esse o espetáculo que me cativou para a arte dança, de que me tornei, a partir de então, primeiramente espectador assíduo, depois crítico, função que desempenhei por dez anos, e por fim, numa dessas coincidências que a psicologia junguiana chama de sincronicidades, diretor do Balé da Cidade, que tive a felicidade de dirigir entre 1989 e 1992, quando Luísa Erundina foi prefeita da cidade, Marilena Chauí comandou a Secretaria da Cultura e Emilio Kalil dirigiu o Teatro Municipal.

É dessa feliz conjunção de três lugares diferentes - espectador, crítico e ex-diretor - que tenho acompanhado, ininterruptamente, a trajetória do Balé da Cidade de São Paulo. E a despeito das inevitáveis, e certamente injustas, omissões em quem incorrerei, penso não estar enganado e nem faltar com a verdade ao demarcar, como farei a seguir, o que têm sido, em grandes linhas, as últimas três décadas de dança no Balé da Cidade.

Em 1973/1974, a transformação radical por que passara a companhia provocou mágoas, artísticas e pessoais, e deixou insatisfeita uma parcela do público, conseqüências inevitáveis em mudanças dessa ordem. No entanto, a consistência do partido artístico adotado, a felicidade de algumas criações da segunda metade dos anos 1970 e o enorme sucesso de público e crítica do novo Corpo de Baile conquistaram até mesmo uma parcela dos descontentes e saudosistas.

Em 1974/1975 São Paulo finalmente tinha uma companhia de dança que se mostrava capaz de refletir traços distintivos da metrópole que lhe dá abrigo: usina de produção de arte e cultura, ponto de chegada e de irradiação de muitas culturas e povos, cenário de riqueza e pobreza, lugar onde o passado, para se fazer presente, tem de se embrenhar na paisagem em permanente mudança, espaço em que se articulam diferenças e contradições, confluência de diversidades, ponto de convergência de multiplicidades de toda sorte.

Ao quarteto inicial, formado por Antônio Carlos Cardoso, Iracity Cardoso, Victor Navarro e Marilena Ansaldi, somou-se o talento gigantesco do argentino Oscar Araiz, na época coreógrafo de prestígio internacional mais do que firmado. Foi desse modo que ao longo de seis ou sete anos pudemos assistir, encantados, a uma emocionante floração de obras de arte em dança.

Nesse período, Victor Navarro assinou produções de forte impacto, como Apocalipsis (John MacLaughin e Mahvishnu Orchestra, 1976) e Corações Futuristas (Egberto Gismonti, 1976), que deram ao conjunto da companhia um admirável sentido de coesão e homogeneidade, e também delicadas obras camerísticas, de grande inspiração, como Danças Sacras e Profanas (Debussy, 1975), Gadget (Penderecki, 1978) e Daphnis e Chloé (Ravel, 1979).

A contribuição de Oscar Araiz ao crescimento artístico da companhia se daria por meio de importantes obras do opus do coreógrafo: Mulheres (Grace Slick, 1976), Canções (1976), delicadíssima leitura das Canções do Companheiro Errante, de Mahler, Prelúdios, imponente criação para os bailarinos da companhia (Chopin, 1977) e sua sensacional obra Cenas de Família (Poulenc, 1978), um dos maiores sucessos que o Corpo de Baile conheceria ao longo de toda sua história.

Antônio Carlos Cardoso, por sua vez, alternaria resultados inconstantes, em obras de pequeno porte com música de câmara, ao imenso sucesso que se mostrava capaz de alcançar ao valer-se de música e literatura brasileiras em criações afinadas com o tempo presente, como Nosso Tempo (Paulo Herculano, 1976), a empolgante Aquarela do Brasil (colagem de música popular brasileira, 1979) e Sol do Meio Dia (1980).

Cardoso, diretor de muitas virtudes, mostrou-se desde logo preocupado em estimular o surgimento de novos coreógrafos, para fornecer à sua companhia o alimento de que todas as companhias de dança necessitam - novas obras. Assim, foi por seu intermédio que o bailarino argentino Luis Arrieta teve suas três primeiras oportunidades importantes como coreógrafo. Talentoso, talhado para o ofício e muito capaz, Arrieta agarrou-as com unhas e dentes: Camila (Mahler, 1977) e Testemunho (Mahler, 1978), criações incipientes mas plenas de promessas, antecederam sua primeira obra de maturidade, Presenças (Rachmaninoff, 1979), ainda hoje em minha opinião uma de suas melhores criações.

Luis Arrieta sucederia Antônio Carlos Cardoso logo no início dos anos 1980, e voltaria a ocupar a direção do Balé uma vez mais, ao final dessa mesma década. Sua contribuição ao Balé da Cidade, iniciada em 1977, se faz presente até hoje e, de um modo ou de outro, jamais deixou de se fazer sentir. Com efeito, como diretor o coreógrafo trouxe para o repertório da companhia algumas de suas obras mais bem sucedidas, como por exemplo Da infância (Mahler, 1980), Sanctus (1980), Libertas (Egberto Gismonti, 1981), Trindade (Barber, criado para o Grupo Elo em 1982 e estreado pelo Balé da Cidade em 1986), Magnificat (Bach, 1986) e Mandala (Ravel, criado para o Balé do Teatro Castro Alves em 1986 e estreado pelo BCSP em1988).

Entre os dois períodos em que Luis Arrieta foi diretor do Balé da Cidade, a companhia passou por uma outra profunda renovação, talvez não tão radical quanto a primeira, de 1974, mas tão proveitosa quanto aquela. Em 1982, Klauss Vianna assumiu a direção do grupo e com a colaboração de Julia Ziviani, que viria a sucedê-lo de 1983 a 1984 imprimiu novos rumos ao percurso do Balé da Cidade. Acredito que o tempo já permite uma avaliação justa sobre a importância desse período, que se não foi pródigo em obras duradouras, do ponto de vista artístico foi altamente provocador. Dados seu temperamento e seu modo de ser artista, Klauss Vianna não poderia ter feito de modo diferente: virou tudo de pernas para o ar, criou um grupo experimental dentro da companhia principal, deu oportunidade a novos talentos e inscreveu o teatro e a dança moderna nas almas e nos corpos de seus artistas.

Devemos a Klauss Viana e sua proposta renovadora não apenas o prazer de assistir a obras de artistas já completos, como Lia Robato e Emilie Chamie, co-autoras de Bolero, espetáculo multiartístico de 1982, J. C. Viola e sua impactante Valsa para vinte veias (criada para seu grupo em 1980 no Teatro Galpão e remontada para o Balé da Cidade em de 1982), Certas Mulheres de Mara Borba Sonia Mota e Susana Yamauchi readaptado para o BCSP em1982, A dama das camélias, produção de 1983, em que José Possi Neto deu asas a sua inesgotável imaginação e estimulou o ato solidário de coreografar também em equipe, e Oscar Araiz, que voltaria ao Balé da Cidade com Cantares, belíssima criação sobre música de Ravel, em 1984.

Devemos a Klauss também diversas criações de novos coreógrafos, e nesse feixe foram preciosas, e muito bem aproveitadas, as oportunidades oferecidas a jovens como Mara Borba, Sonia Mota, Susana Yamauchi, João Maurício, Wilson Aguiar e Sérgio Funari. Diversos dessses artistas tornaram-se coreógrafos e professores de prestígio nacional e internacional.

Cardoso voltaria a ocupar a direção do Balé da Cidade por um breve espaço de tempo, em 1985 e após um período de 6 meses sem diretor artístico em agosto de 1986do de Luis Arrieta. Em minha apreciação, nos últimos anos da década de 1980 a companhia encontrava-se diante de uma perigosa possibilidade de estagnação.

A despeito de seu imenso talento para criar balés, capacidade que elogiei repetidas vezes na imprensa escrita ao longo de meus dez anos como crítico de dança, suas virtudes como coreógrafo eram mais abundantes do que suas habilidades como diretor. Penso que desvencilhado das múltiplas e complexas responsabilidades de dirigir uma companhia como o Balé da Cidade, Arrieta se mostrava mais à vontade para oferecer o melhor de si, que é criar bons balés e obras de grande impacto, essa sim sua vocação inextricável.

Assim, parecia-me que começava a faltar ao Balé da Cidade aquelas que sempre haviam sido suas três características mais admiráveis: o perfil multicoreográfico do repertório, a abertura para vários criadores e linguagens, e a ousadia de enfrentar territórios artísticos desconhecidos. Ademais, a companhia padecia de crônicas dificuldades e carências no que dizia respeito às condições técnicas, administrativas e operacionais de trabalho.

Ao assumir a direção do Balé da Cidade em 1989, propus-me a restaurar as melhores qualidades artísticas da companhia, empenhei-me ao máximo para oferecer as melhores condições de trabalho e estabeleci que a direção do Balé da Cidade haveria de ser um empreendimento conjunto, em que os ensaiadores desempenhavam papel de enorme relevo. Para tentar dar conta dessas ambições, convidei Hugo Travers, Susana Mafra e Sergio Funari para participar da aventura comigo.

Suely Sciedlarczykjuntou-se ao grupo no final de 1989, Sérgio Funari trabalhou conosco até o final de 1991, e Mônica Mion, hoje à frente da companhia, passou a integrar a equipe de direção da companhia no final de 1989. Que Susana, Hugo e Sueli continuem a entregar o seu amor e o melhor de suas capacidades ao Balé da Cidade até hoje, de modo praticamente ininterrupto, é algo que enche meu coração de alegria.

Graças ao apoio que a companhia e eu sempre recebemos de Emilio Kalil, da secretária da cultura Marilena Chauí e da prefeita Luísa Erundina, penso termos sido bem sucedidos nas tarefas que minha equipe e eu nos propuséramos a realizar. Retomamos obras que haviam feito parte da história da companhia, restabelecemos o perfil multicoreográfico do repertório, aventuramo-nos em experiências de dança-teatro, reativamos os workshops de novos coreógrafos e conseguimos dotar o Balé da Cidade de um arcabouço operacional e administrativo que se tornou a base da complexa estrutura técnica, administrativa e operacional que hoje garante à companhia uma admirável desenvoltura e alto grau de eficiência.

Ivonice Satie respondeu pela direção do Balé da Cidade entre 1993 e 1996, e sob sua liderança a companhia lançar-se-ia a novos e mais altos vôos, inclusive o mais s sonhado deles: conquistar o reconhecimento internacional. A estrutura operacional moderna e eficaz, o elenco afiadíssimo e um repertório que incluía trilhas sonoras originais de Gilberto Gil e Tom Jobim, e coreografias de Germaine Acogny, Vasco Wellemkamp e Ohad Naharin, permitiram ao Balé da Cidade de São Paulo dar início, na Bienal de Dança de Lyon de 1996, na França, sua muito bem sucedida carreira internacional. Desde então, em suas muitas viagens pelo Brasil, pela Europa e pelo Oriente Médio, a companhia vem conquistando os mais calorosos elogios da crítica especializada e o carinho entusiasmado do público.

Ao assumir a direção do Balé da Cidade em 1997, José Possi Neto, homem de teatro amoroso da dança e artista de incontáveis talentos e méritos, trouxe para a companhia uma indispensável reflexão sobre dimensão ética do ato de dançar. Movido por sua incansável vontade de realizar, aberto ao trabalho conjunto de criação e despido de vaidades, Possi tratou de cumprir os compromissos nacionais e internacionais do elenco, programados por conta do sucesso da companhia na Europa, e esperou pacientemente a oportunidade para imprimir seu timbre ao repertório e ao elenco que dirigia. Ao começar a fazê-lo, com promissores e interessantíssimos resultados - confesso que poucas vezes vi aos bailarinos da companhia aventurando-se com tanto destemor em empreendimentos marcados pela coragem e pelo desassombro artístico -, em junho de 1999, por razões de ordem pessoal, Possi desligou-se do Balé da Cidade, e Ivonice Satie voltou à direção da companhia.

Nessa que seria sua segunda oportunidade como diretora do Balé da Cidade, Ivonice prosseguiu na mesma direção que já trouxera tão bons frutos, entre 1993 e 1996. Além disso, também criou a Companhia 2, para oferecer aos bailarinos e intérpretes mais velhos do elenco um repertório e uma proposta de trabalho que aproveitassem ao máximo a experiência acumulada nesses corpos moldados por anos de trabalhos diário em sala de aula e no palco. Penso que os resultados mais consistentes e interessantes dessa empreitada começaram a se fazer sentir depois de Ivonice Satie deixar a direção do Balé da Cidade, ao final de 2001, em obras como Como se não coubesse no Peito de Denise Namura e Miachael Bugdahn ( 2001 ) e Deserto dos anjos de Claudia Palma (2002).

O fato de Mônica Mion finalmente ocupar a direção da companhia me parece ser uma escolha feliz, justa e necessária. Acredito que poucos artistas que pertenceram ao Balé da Cidade, em qualquer tempo, teriam mais direito de ocupar essa posição do que ela: artista de coragem admirável, intérprete de incontáveis méritos e bailarina extraordinária, Mônica ingressou no Balé da Cidade em 1976, e desde então ofereceu à companhia, ininterruptamente, sempre e apenas o melhor de si. Ao longo de 25 anos, não houve criador que não a aproveitasse em suas obras no Balé da Cidade.

Experimento uma ponta de orgulho em vê-la à frente dessa companhia que tantos significados tem para mim. Sempre fui, como espectador e como crítico, um grande admirador da bailarina e intérprete. Quando dirigi o Balé da Cidade convidei Mônica para ser ensaiadora e assitente de coreografia, e pude então conhecer a firmeza de seu caráter, sua inteligência ágil e vivaz, sua capacidade de liderar pessoas e sua dedicação incondicional ao ato de dançar e à companhia onde ela fez isso por toda a vida.

Imaginei que ela um dia poderia ser diretora. Tornou-se e vem mostrando que sabe o que quer e como alcançar o que deseja. E não posso deixar de me emocionar ao ver que agora, com o apoio de Lúcia Camargo, diretora do Teatro Municipal, de Marco Aurélio Garcia (2001-2002), Celso Frateschi (atual) secretário da Cultura e da prefeita Marta Suplicy, o Balé da Cidade, liderado por Mônica, Suzana (está indo embora), Hugo e Sueli ensaia novos e mais audazes vôos.

E porque penso que não me enganei a respeito das habilidades de Mônica, passo a ela a palavra para que apresente seu modo de ver o Balé da Cidade, a direção que ela pensa seguir e seus planos para comemorar os 35 anos da companhia cuja história, desde 1968, vem sendo escrita por muitas e carinhosas mãos.

 

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